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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Polaridade de sentimentos revelados pelo tempo - 10

Tudo que tenho para te presentear são pedidos de desculpa. Desculpa não te ter poupado à dor. Desculpa não ter entendido bem pelo que estavas a passar. Desculpa acima de tudo, ter-te tirado o que para mim se tornou tão precioso. Desculpa. Desculpa porque fui fraco e sucumbi ao desejo. Nunca desejaria que isto acontecesse se não fosse a minha natureza mais forte que a minha palavra. Cura-te de mim, que sou uma doença. Desculpa.


O tempo pode encontrar
A mais pura das mensagens
Na agrura da fleuma
E tratar de restaurar
No interior da pneuma
As vontades mais selvagens


Nem águas dos sete mares,
Nem brisas dos sete ventos,
Podem conceber deveras
O poder dos pensamentos
E a força dos olhares
Quando somos feitos feras


O ente aniquilador
Diz-se dono da razão                            
Mas não sabe o que se passa;
Já o qu’ ainda sente amor
Vê no outro a desgraça
De um ser sem coração


Mas é o passar das fases
Que dita as regras do jogo
E quem é o vencedor
Hei eu de cair em fogo
Vais corroborar as bases
E construir novo amor


Sabendo o que sucede            
Só mantenho algo em pena,
Qu'é ter-te tirado o ombro;
E a minha alma pede
Que retires o assombro:
Devolve-te à pequena


E como resposta final
Culpa e arrependimento
Sinto depois deste espaço;
Mas nem tudo foi tormento
Porque em nada foi banal
A força do nosso laço




segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Atormentada maré de desculpas - 9

Passamos por muita coisa naquele barco. Do tempo em que éramos dois enjaulados desconhecidos com ânsia de saber mais, e bestas inocentes com pouco sentido de orientação. No fundo só queríamos desesperadamente que aparecesse um ninguém que nos sarasse as feridas, nos desse um pouco de conforto, e nos deixasse um sorriso nos lábios. E a princípio encontramos.
Depois o tempo passou, e o crime que cometíamos ficava cada vez mais evidente. Nenhum de nós quis pensar nisto como um crime. E começou então uma maré alta. Muito turbulenta. Ameaçadora. Perigosa.
Tivemos de intervalar as propriedades dos ímanes. Tivemos de correr, para nos sentarmos. E quando parecia que as coisas não podiam piorar, eu caí do barco, e afoguei-me nas chamas abaixo de nós. Pobre de mim que me afoguei, e me sentia tão criança. Tão feliz. E consciência? Não era chamada ao momento.
Agora dou por mim a enrolar bolas de neve. Até as brisas me matam. 


Uma forte mágoa de alma                   
Vivia no fundo de mim
Em tempo de tom escuro,            
E ao procurar a calma
Percorri, no obscuro,
Um estranho caminho sem fim


Tentar apagar o medo
E aquietar a dor
Encaminhavam certeza
Encontrei em mim amor,
Desvendei-te o segredo
E entendi que estavas presa


Em brasa pediste espaço
E tentaste desaparecer,
Enterrando o novo achado;
Abracei, forçando o laço
E nas marcas do passado
Recomecei a morrer


Na escada da ilusão
Subindo, dizia ao vento:
Serei dela eternamente;
Mas revelaste opressão
E mostraste em ti diferente
O que em mim era sedento


E agora incolor,
Flutuo em tormentos.             
Sem nenhuma identidade,
Não sei mais ser sonhador,
E tenho em prioridade
Afogar-me em lamentos





sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Conforto na palavra amigo - 8

A vida é um mar de emoções impuras. Nós nascemos puros e sem capacidade de enfrentar essas forças que insistem em esmagar-nos. São de tal forma violentas que nem com o conselho adulto dos nossos anciãos conseguimos ficar de pé. E como não conseguimos proteger-nos sozinhos, temos de arranjar uma maneira de triunfar:

Ser amigo é ser ninguém
Ser tudo, sem fazer nada
É ter a fome de ouvir
Sem medo d’ir mais além
Ser triste, poder sorrir
E acender luz apagada


É apagar a existência
E cantar prudentemente
O curso das ondas velhas;
É sentir inteiramente
E repor de novo as telhas
Com a maior diligência


Intervalar momentos bons
Com os de infelicidade
Tanto estar pra gargalhada
Como pra privacidade,
E oferecer sempre estrada
Afastando os piores tons


Então quando a alma dói
E a alegria ganha pó,
Não deixes a voz fechar
Porque o silêncio mói
E em nada vai ajudar;
Lembra-te, não estás só.


Se nascer dúvida tonta
Ou te perguntar alguém
O que é ter um amigo,
Responde com grande afronta:
É ter nada e ter também
Um pronto porto de abrigo