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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sonhos que aquecem o gelo - 7

Pois, sonhos... O sonho é um mundo perfeito e paralelo ao que nos envolve. Lá, sem controlo sobre a nossa alma, conseguimos ser felizes, deixar as barreiras de lado, e voar mais alto do que qualquer ave. Um mundo de magia pouco fixa e imprevisível. E ao acordar, perdemos as suas benesses. Sim, acordar é horrível. Tens razão.

O sonho d'um só momento
É a alegria da gema,
Força do músculo preso
Que com o andamento,
Torna o espírito aceso
E deixa a dor mais extrema


Sonhas estar a voar
Com grande força nas asas
E se de repente acordas
Afogas o ovo em brasas
E queres só desafogar,
Mas as sensações são hordas


A existência corta a fundo
A casca dos mais inermes
Com a faca de dois gumes
Que constroi o mais imundo
E insiste em manter lumes
No mais impuro dos vermes


Por isso não quero acordar
Nem voltar a sentir brisa
Qu' afaste o brilho e a essência
E se eu passar da divisa
Escolho então desabar
O duro pesar da existência






quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Buracos que a chuva causa - 6

Será que a chuva molha o vento? Perco alguns minutos na pátria aguçada e tento molhar algumas brisas leves, quentes e indefinidas. E elas não respondem, e não sei para onde vão as gotas, nem onde penetram.
Levo ao ar mais umas palavras e não sei se espero resposta alguma. Grito.

A maré em frenesim                           
Fez água e vento em escada             
Entende ambiente tenso                  
E então o que é o fim,                       
Senão o fruto propenso,                   
 Da árvore mais mastigada?             

Corredores mortos de tempo          
Intervalam chance bruta                   
De ver o tudo no nada                      
Com hipótese pouco astuta,             
D’entre escasso movimento              
Correr sobre linha rasgada             

E se não pode ter tudo,
O que deve acontecer?
Deixa tal maré feliz,
Ou com um pouco de estudo,
Encontra um outro juiz
Que deixe a chuva viver?

De novo te chamo vento
Invoca uma voz oculta,
Ela diz-te o que fazer
Que sou chuva pouco adulta
E só uso o pensamento
P'ra não te deixar morrer


domingo, 13 de outubro de 2013

Gritos doces de verdadeira agonia - 5

Está muito frio. Fugi para uma floresta gelada e procurei calor debaixo da tinta preta de uma caneta azul. Fugiram-me pensamentos bons e ficaram palavras, porque delas se alimenta a minha fome. Ao crepúsculo, depois de ouvir o vento, fiquei a entender pouco da razão. E da relação incestuosa entre o nada que entendi e o tudo que não entendo, nasceram estrofes de vontade e memória, às quais um dia, por intermédio do mistério e da ansiedade, poderá o vento usar como chave, para desencadear emoções à chuva:


Quando a cor perde o sabor,  
E na dor do teu olhar               
Encontro já o saber                    
Vejo o fundo do mar,                
Fico modesto em ardor           
e enceta o talento a tecer.      


Abraço flores com o cheiro     
E insisto só em pensar              
Faça o vento acontecer           
Seja fugir ou sonhar                 
E posso então prometer,        
Dar-te-ei o mundo inteiro.        


E se achares que é só dor               
conteúdo destes versos         
Ouve o silêncio da voz,            
Cantarás que são reversos     
E verás chama e calor             
Neste fado tão atroz.               


Por isso te invoco vento         
Faz da chuva a tua casa          
E desiste da revolta                  
Que se esse calor não vaza         
É porque tem ponta solta          
Na pátria do pensamento.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Lava gelada, flocos quentes de neve - 4

Não faz sentido que nesse reino imperfeito liderem tais ideais. Aquela casa velha, que em miúdo entrava pela janela, está feia e ainda mais velha. Cresci e já não consigo entrar pela janela, e para meu grande desagrado encontro todas as portas fechadas. Não consigo chegar à lareira que me aquecia naqueles tristes e desagradáveis tempos frios. O casaco que visto agora não serve, porque não me dá mais do que um conforto irreal. As árvores estão cinzentas no jardim dessa casa. As flores não têm cor. Os frutos não têm sabor.
Piso em lava gelada, e caem do céu pequenos flocos de neve, que ardem e me queimam a pele.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

"ao vento" Erradica as palavras, sente o significado - 3

Pois é certo, que sem água não existiria o mar, e que sem vento este não se moveria.
Não pares vento, para que não pare a água. As ondas e as brisas estão fortemente ligadas.
A água condensa-se, precipita-se e cai. Volta a levantar-se. 
E porque é isso tudo objectivo? Porque não o é, e talvez não o sejamos. E estarei errado eu? Sim, estás. E estarás errado tu? Sim, estou. E mais, estamos ambos certos.
Revoga e erradica palavras tolas, e faz sucumbir o que nos afasta. Sente e não compreendas, porque assim funciona a nossa rotina. Porque tu és vento e eu sou chuva. Porque sinto a tua falta, e sente o mundo falta da nossa companhia. Porque as ondas são palavras, e as brisas acções.


domingo, 6 de outubro de 2013

Maré de tormentas, perigos do regresso - 2

Grandiosos castelos com belas e fortes construções foram erguidos sobre pequenas rochas, que sem trabalho não deixariam de o ser. As árvores deram lugar a sabedoria, e os nervos quentes transformaram-se numa quieta evolução de inquietação.
Sim, quero gritar. Sim, quero fazer com que as árvores me ouçam, que me ouça o frio e cruel mar, e os barcos que nele navegam, e quero que tu, vento, arranjes coragem necessária para me soprar ao ouvido a palavra errada no tempo certo. Ou talvez a palavra certa no tempo errado.
Que seria da degradação e corrosão sem o tempo? E o que seria do tempo sem esses também?
Promessas não são diferentes dos ramos da minha árvore. Se não fosse o vento, e a corrosão, e o nada, e o tempo.. eles nunca se partiriam.
Por isso constrói! Constrói castelos, e protege as árvores num bonito jardim, com perfume e calor. E talvez daí nasça a sabedoria.