Não sei se por ter usado demais este dom, ou se por o ter, talvez inconscientemente, aplicado em benefício da minha grande bomba de sangue, devo ser privado de tudo que me era mais precioso. Se calhar, no fim de todas as contas, a natureza leva a melhor, e fico eu envolto em chamas, condenado à dor por ter desafiado o equilíbrio. Ou então, o que eu pensava ser tão especial, era apenas uma fraca peça, onde eram unicamente perceptíveis sons de baixa frequência e grande intensidade, vindos do dedilhar perfeito do destino a tocar um dos seus instrumentos de cordas, desafinando no teatro da minha ignorância.
E acabou por se congelar a vida. Sem justificações ficou tudo abandonado ou deixado ao cuidado de palavras que supostamente nem existem. E aí, justamente aí, surge o problema da existência.
Provavelmente para recomeçar, e recuperar a existência, temos de descongelar a vida.
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